A Ceia do Senhor Imprimir
Escrito por Jabesmar A. Guimarães   

Antes de iniciar este estudo, seria bom que abríssemos o nosso coração para aquilo que a Palavra de Deus quer nos transmitir a este respeito. É muito comum ouvirmos várias opiniões sobre a Ceia do Senhor, mas serão todas elas bíblicas? Que nossa oração seja no sentido de que Deus nos ajude a abrigar em nossos corações as profundas verdades bíblicas acerca do sublime significado da Ceia do Senhor.

Seria importante frisar que o presente estudo não tem a pretensão de esgotar todas as considerações acerca deste assunto, pois o espaço não nos permite.

Feitas estas observações, passemos a analisar os principais textos que nos falam acerca da instituição da Ceia na Igreja de Cristo. São eles: Mt 26:26-29; Mc 14:22-25; Lc 22:19-20; Jo 6:48-58; At 2:41-46; 20:7,11; ICo 10:15-17; *11:23-26.

Vemos que esta ordenança é chamada de partir o pão (At 2:42,46, 20:7, 11) e de Ceia do Senhor (ICo 11:20). Seria bom notar que estas são as únicas ocorrências destes termos na Bíblia. Apesar da maioria das igrejas locais adotarem o segundo nome, não é errado se referir a Ceia do Senhor como o partir o pão. Já a expressão Santa Ceia deve ter sido introduzida no vocabulário de algumas igrejas locais com a melhor das intenções, contudo não é uma expressão tirada das Escrituras Sagradas.

Como pudemos observar os textos são muito sucintos e nenhum deles nos ensinam a forma de celebrar a Ceia do Senhor.

Quanto a forma, o que vemos é uma celebração simples e desprovida de liturgia, ritos e "trajes especiais" (Isto não quer dizer que o conteúdo e/ou o significado não sejam ricos e profundos).

Outro ponto importante é que o Senhor usou elementos comuns aos costumes judaicos para instituir a Ceia. Ele não criou nada novo. O Pão era um dos que já estavam à mesa, o mesmo pode se dizer a respeito do vinho. Eram elementos comuns da alimentação diária daquele povo. O fato de estarem à mesa compartilhando uma refeição era algo muito significante na cultura oriental. Comer com alguém era muito mais do que simplesmente se alimentar; significava associação, comunhão, compromisso e interesse mútuo.

Os três relatos dos Evangelhos e o relato de I Coríntios se complementam e incluem as principais características da Ceia. Mateus e Marcos combinam entre si, bem como Lucas e Paulo também. A diferença principal entre estes dois grupos são que Mateus e Marcos omitem a frase "fazei isto em memória de mim" e incluem "derramado em favor de muitos" depois de se referirem ao sangue da aliança. Lucas diz: "derramado por vós." Em lugar da observação que o Senhor fez da Sua futura reunião com os discípulos no Reino de Deus, Paulo faz referência a proclamação da morte do Senhor "até que ele venha".

Estas palavras de Paulo refletem, de forma inequívoca, a esperança escatológica da volta do Senhor para arrebatar a Sua Igreja. Esperança esta que é, por assim dizer, reavivada pela celebração da Ceia do Senhor.

É também através de Paulo que tomamos conhecimento do profundo significado da Mesa do Senhor como uma comunhão (koinonia) com o Senhor (ICo 10:16). É de bom tom lembrar que a nossa comunhão não é com o Cristo morto e sim com o Senhor ressurrecto, vitorioso, glorificado e poderoso. Paulo também nos mostra a unidade da Igreja, pois assim como compartilhamos de um único pão, assim também nos reunimos como um único corpo de Cristo (ICo 10:17).

Assim vemos que a Ceia do Senhor simboliza não somente o próprio corpo e sangue do Senhor Jesus mas também o Seu Corpo místico, que é a Igreja. Quando "todos participamos do mesmo pão" isso significa, entre outras coisas, que nós, apesar de sermos individualmente muitos e diversos, nesse ato ficamos sendo uma coisa só: um "pão" ou um "corpo", ou como se fala em ICo 2:5, um "sacerdócio" (S. E. Mac Nair. Cartas Ocasionais, p. 120).

Quando Paulo se refere à noite em que o Senhor foi traído, nossas mentes são levadas aos textos que narram da instituição da Ceia. Nos deteremos, um pouco, nas palavras proferidas por Jesus naquela noite, buscando entender o significado delas. Passemos a uma comparação entre as narrativas:

  • Mateus: "Tomai comei; isto é o meu corpo".
  • Marcos: "Tomai, isto é o meu corpo".
  • Lucas: "Isto é o meu corpo oferecido por vós; fazei isto em memória de mim".
  • Mateus: "Isto é o meu sangue da [nova] aliança, derramado em favor de muitos para a remissão de pecados".
  • Marcos: "Isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança derramado em favor de muitos".
  • Lucas: "Este é o cálice da nova aliança no meu sangue derramado por vós".

Ao se referir ao Seu corpo e Seu sangue, Ele aplica a si mesmo uma linguagem sacrificial. Ou seja, Ele fala de si mesmo como o sacrifício que inauguraria e garantiria a nova aliança. Segundo Agostinho de Hipona (354-430 AD), estas palavras de Jesus "são uma figura que quer nos comunicar a paixão do nosso Senhor, e entesoura de maneira secreta e proveitosa em nossas memórias o fato de que ele foi crucificado e traspassado por nós".

A ceia é uma demonstração de que a essência da vida cristã; é receber a Cristo como alimento espiritual. "Quem comer a minha carne e beber o meu sangue, permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou, e igualmente eu vivo pelo Pai, quem de mim se alimenta, por mim viverá" (Jo 6:56,57). Portanto, a fé é algo fundamental ao participarmos da Ceia. O mero participar da Ceia não traz os benefícios da obra de Cristo, estes devem ser apropriados pela fé. O cristão deve alimentar a sua alma com Cristo (Jo 6:51), e a Ceia é apenas uma figura disso. Cristo é o Senhor da mesa, mas Ele não pode ser dado e recebido automaticamente pela simples realização do ritual da Ceia.

Outra frase de Jesus que é repetida duas vezes por Paulo é: "fazei isto em memória de mim" (Lc 22:19; ICo 11:24,25). Esta ordem tem por finalidade que nós não nos esqueçamos a obra redentora que ele efetuou na Cruz do Calvário em nosso favor. Seria o mesmo que dizer, "em lembrança de mim" ou "em recordação de mim". Ou seja, ao realizar a Ceia Memorial, a igreja lembra a morte sacrificial de Jesus Cristo e a realidade dos benefícios advindos deste ato. Em outras palavras a Ceia é uma dramatização que nos recorda o que aconteceu no Calvário.

O pão ao ser quebrado nos lembra que Cristo foi "moído pelas nossas iniquidades"(Is 53:5; Tt 2:14; IPe 2:24;Hb 10:10). O vermelho do vinho nos lembra que Ele derramou seu sangue para tirar o nosso pecado, nos santificar e nos aproximar de Deus (Ef 1:7, 2:13; Cl 1:20; Hb 9:28, 10:19, 13:12; IJo 1:7; Ap 1:5, 5:9). Ao celebrarmos a Ceia, os benefícios advindos do sacrifício do Senhor Jesus devem ser trazidos à nossa memória e gerar no nosso coração um sentimento de profunda gratidão e adoração a quem tanto nos amou. Na Ceia, a Igreja, o Corpo vivo de Cristo, vislumbra as melhores coisas que Deus tem preparado para nós, tornando viva a nossa bendita esperança (Tt 2:13).

A Ceia do Senhor apresenta uma tríplice perspectiva:

  • Passada, lembra um evento e revive sua realidade e valor;
  • Presente, anuncia e dramatiza a obra redentora do Senhor, convocando a Igreja ao cumprimento da sua missão; e,
  • Futura, exorta seus participantes à espera do Senhor glorificado que vira consumar o plano de Deus. E, nessa tríplice perspectiva, a Ceia é o mais forte elo da unidade corporativa da Igreja cristã, "porque todos participamos do único pão" (I Co 10:17 - Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. p. 415).

Existem hoje quatro posições mais comuns acerca da Ceia do Senhor. São elas:

  • Transubstanciação (Católica Romana): no momento da Ceia (eucaristia) os elementos são transformados no sangue e corpo de Cristo.
  • Consubstanciação (Luterana): o corpo e o sangue de Cristo estão presentes e combinados com os elementos da Ceia.
  • Presença Espiritual (Calvino): Cristo está presente com os elementos.
  • Memorial (Zwingli, Batista, Pentecostal, Irmãos): os elementos são somente símbolos, e a presença de Cristo e relativa à fé do participante. Cada um tem que tomar a Ceia com a atitude correta e com fé.

Detalhes Importantes:

  • Cristo não tinha morrido quando institui a aliança.
  • O propósito é proclamar a morte do Senhor, não recrucificá-lo.
  • O uso da linguagem inclui metáfora (Ex.: isto é o meu corpo; ou, este é o cálice da nova aliança). Não é usada uma linguagem literal assim como "eu sou a porta" também não é.

No entanto, tendo visto tão grande riqueza de significados belos e profundos, é de se estranhar que elementos alheios à Ceia do Senhor tenham sido introduzidos na sua celebração; tomando vulto de grande importância e usurpando o lugar do Senhor. Aquilo que era para ser singelo foi acumulado de um ritualismo que tira a nossa atenção do essencial. Em algumas igrejas locais o horário, a mesa, toalhas, guardanapos, paletó, gravata, cálice ou cálices, pão com ou sem fermento etc, tem tido mais destaque que o Senhor da Ceia.

São tantas regras e preceitos que a simplicidade e a singeleza com que era celebrada pela igreja de Atos a muito ficou para trás. Temo que alguns irmãos estejam beirando a idolatria quando dão demasiado valor a mesa e a toalhas chegando ao ponto de deixar de participar da Ceia quando um destes detalhes não estão de acordo com o seu gosto pessoal. Digo gosto pessoal com a convicção de que estas coisas são regras humanas que não se encontram na Bíblia. E se não estão na Palavra de Deus não deveriam ser impostas na Igreja do Deus da Palavra.

Criticamos, e com razão, as igrejas que dão ao pastor a exclusividade de repartir os elementos, mas em algumas igrejas locais a distribuição dos elementos é exclusividade de presbíteros e diáconos; e isto se estiverem devidamente uniformizados. Alguns dizem: "quem vai participar da Ceia pode vir sem paletó, mas quem vai servir deve trajar paletó e gravata." Ai cabem duas perguntas: (a) quem é mais importante, o que distribui os elementos ou o que recebe? (b) onde, na Bíblia, é exigido traje especial para servir a Ceia? Para a primeira pergunta a resposta é: "nenhum dos dois e sim o Senhor." A segunda resposta é: "Além da exortação de que o cristão deve se trajar decentemente (não só nas reuniões da igreja), em nenhum lugar encontramos tal instrução". E assim, em muitos lugares é dada tanta ênfase a forma que o conteúdo sofre detrimento.

Quando privamos um irmão de, em qualquer dos dois aspectos, participar da Ceia, que não é nossa mas do Senhor, por motivos alheios à Sua Palavra, estamos pecando. "Receio muito a ocupação com formas e ritos: com a matéria e não com o espírito - que é Cristo. Tenho notado que uma demasiada ocupação com a parte material do serviço tende a depreciar a parte espiritual" (S. T. Mc Nair - Cartas Ocasionais. p. 123).

Para finalizar, devemos atentar para uma situação muito comum nas igrejas locais. Me refiro as pessoas que deixam de participar da Ceia por acharem que um irmão não está participando dignamente. Mais uma vez gostaria de compartilhar com vocês o conselho de um sábio:

"Alguns, com uma facilidade extraordinária, afastam-se da Ceia em qualquer ocasião em que não aprovam a conduta de alguém ali: um modo de proceder que a Escritura não ensina. Julgar os outros e assim não tomar parte, tampouco concorda com a Escritura que nos ensina a julgarmos a nós mesmos e assim tomarmos parte" (Cartas ocasionais. p.12,13).

Uma última observação é que gostaria imensamente de ter terminado este estudo a sete parágrafos atrás. Contudo, por força das circunstâncias, nos foi necessário abordar estes erros que devem ser evitados e rejeitados. Infelizmente há pessoas que gostam de condenar os irmãos que não pensam como elas, mas seria bom lembrar que nem tudo que condenamos Deus condena; e nem tudo que aceitamos Deus aceita. Quando quero forçar um irmão a fazer o que a Bíblia não ordena é como se estivesse dizendo: "assim diz o Senhor", quando o Senhor não disse. Isto é sério e deve nos encher de temor a possibilidade de que estejamos acrescentando pareceres particulares nossos à Santa Palavra do Senhor.

 

Jabesmar A. Guimarães